Amante não tem lar

17 de abril de 2026

Estão preparados para mais um texto visceral? Eu gosto muito quando sou honesta com vocês. Ultimamente, tenho vivido um dos momentos mais profundos de descoberta de mim mesma. Tenho feito análise, estudado psicanálise e também feito terapia em reprogramação emocional, além de estar em processo de alta com outra psicóloga que eu passei durante 3 anos. Quanta coisa, né!? Acontece que tenho me aprofundado muito em mim e esses dias descobri algo interessante... descobri que tenho dificuldade de amar as pessoas.


Eu sempre achei que eu tinha dificuldade de ser amada, de deixar o outro entrar na minha vida, mas descobri que é mais profundo e eu tenho dificuldade de amar. Quem diria, de amar! Eu, uma mulher tão intensa.


- Você tem dificuldade de sentir.

- É sério?

- Sim, você não se deixa se sentir.


Foi o que a minha terapeuta disse. Quando ela aplica em mim as técnicas de reprogramação emocional, eu quase não sinto nada, me distraio, não quero me aprofundar nem ser tocada por isso. Não faz quase diferença. Eu não consigo me entregar no momento, não consigo me deixar levar.


Eu tenho um trauma. Gigante. Do tamanho do mundo.


Eu perdi a minha mãe. Na verdade, eu tive que matar ela. Sim, eu matei a minha mãe, matei com vontade, com dor, sangrando, matei. Joguei os restos na privada e dei descarga. A minha mãe me fez muito mal e mesmo assim eu amava ela com todas as minhas visceras. Ela era a pessoa mais importante para mim. Ela era o meu mundo. E de repente eu descobri que amei uma mentira. Aquela mãe que eu achava que ela era, que me fazia mal pelo meu bem, não era verdade. Minha mãe era perversa, era má, e eu não podia mais falar com ela. Falar com ela era questão de vida e morte e eu tive que escolher a mim. Aceitei perder a minha mãe para finalmente poder viver. Mas foi doloroso, foi horrível, foi uma dor que não desejo para ninguém (nem para ela). Foi a pior dor que senti na vida e considero que nada mais vai me doer nesse nível. Me considero muito forte. Fiz o luto de uma mãe viva que para mim é a pior dor. Foi cruel. Eu só tinha 20 anos e tudo o que eu precisava era de uma mãe. Eu não tive. E eu tive que continuar.


Passei 3 anos antes disso tentando me matar. Eu não aceitava a vida que eu tinha, e eu queria resolver essa questão. Poxa, eu queria ter uma família. Por que eu não tinha? Eu me perguntava e me machucava. Foram muitos anos sentindo tudo à flor da pele, ah, 3 anos que nunca vou me esquecer! 3 anos que doeu cada parte do meu corpo, os 3 anos mais difíceis de toda minha vida, 3 anos que morri muitas vezes, que me vi sem saída, que cortava o meu pescoço, que repetia todos os dias que a vida era injusta e clamava para Deus uma ajuda. Queria que ele me ouvisse, sabe? Mas ninguém parecia escutar.


O fato é que morri, mas de alguma forma eu estou viva.


Parece que eu senti tanto no meu passado que hoje tenho dificuldade de entrar em contato com os meus sentimentos. Hoje, eu não deixo pessoas entrarem na minha vida. Os únicos homens que eu me relaciono são os meus clientes, e só de pensar em dar espaço para um homem se aproximar de mim fora do trabalho, já me dá repugnância.


Eu cheguei a me apaixonar por um cliente, mas me apaixonei justamente por um homem que não estava disposto a me amar. Acho que eu só queria reiterar a minha teoria no inconsciente de que não posso amar ninguém. Porque quando gostei, foi justo uma pessoa que não estava pronta para mim. Quando alguém é recíproco comigo, eu me afasto. Eu tenho dificuldade de sentir amor. Acho que eu amei tanto a minha mãe e me decepcionei com ela que agora não consigo mais amar ninguém. Que agora a ideia de amar alguém me causa pesadelos. Que eu tenho pânico, pavor. Que eu não aceito. Eu não aceito amar alguém de novo e me perder. E me matar.


Mas como é que eu vou viver sem amor?


Há uns anos, eu escrevi no meu diário que se eu continuasse me envolvendo com homens indisponíveis, eu nunca teria uma família. E lá no fundo eu tenho vontade de ter uma família. Mas ao mesmo tempo tenho um medo profundo. Um medo de dar errado como a minha família deu. Minha mãe é perversa, meu pai é negligente e meu irmão praticamente não existe. Eu sempre fui o bode expiatório da família, a ovelha negra, a errada. Eu sentia que não tinha nascido deles. Não, eles não eram a minha família e nunca foram, então eu tenho medo, eu tenho medo de construir uma família e também ser morta por ela.


Eu não quero morrer mais.

Eu acho que é humanamente impossível morrer mais do que já morri.


Então eu fiquei pensando, tenho muitos porquês para ser uma prostituta. É inegável que eu gosto de fazer o que eu faço, mas eu acho que tem camadas mais profundas.


Será que me tornei uma amante dos homens porque não consigo ser deles? Será que me tornei prostituta para comprovar a teoria inconsciente de que nunca vou poder ser amada? E, portanto, não vou precisar amar ninguém?


Porque, veja bem, um homem aceitar o que eu faço é muito difícil. Claro que acredito que exista algum, pois temos mais de 8 bilhões de pessoas no mundo, mas geralmente não é tão fácil de encontrar. A maioria não aceita mesmo, tem insegurança, se sente estranho. Então ter me tornado uma garota de programa conversa com o meu trauma. Assim eu me protejo, assim eu continuo sozinha, assim eu não aprendo amar ninguém.


A única pessoa que amei nessa vida foi a minha mãe. Depois dela, nunca mais consegui amar alguém. A única coisa que amo hoje e que estou aprendendo a amar é a minha cachorra, mas ela é um bicho, ela não é tão complexa. Ela é mais fácil de amar.


E vocês acreditam que depois que adotei a minha cachorra perdi mais o interesse ainda de ter família? Depois de ver o trabalho que ela me dá, desejei não ter mais filhos. Nem marido. Depois que ela morrer quero ser completamente livre e não adotar mais nenhum animal.


Viu como é fácil eu desistir de sentir?


Eu estou sempre procurando a minha liberdade. Ah, eu quero sempre ficar longe do que é mais profundo e trabalhoso. Talvez eu escreva porque é o meu jeito de sentir, porque eu não sei sentir de outra maneira, só escrevendo. Às vezes, quando estou precisando chorar, me entupo de cervejas. E aí cai uma ou outra lágrima. 


Um dia será que eu vou me dar a chance de aprender a amar? De também usar aliança e véu ou serei para sempre uma amante na vida das pessoas?


A vida não foi justa comigo. Mas às vezes eu também não sou.


(Esse texto é uma continuação da música "Amante não tem lar" da Marília Mendonça, eu uso a música também para sentir)


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